Tenho gostado da experiência de envelhecer
Nasci para ser senhora.
Já venho me preparando há muito tempo para ser velha. Sempre gostei de tricotar, ler e bordar e acreditei quando me disseram que eram hobbies da terceira idade. O fato de sempre bater cabeça com novas tecnologias parecia selar de vez o meu destino. Nasci para ser senhora, só faltava deixar o tempo fazer a parte dele.
Agora que minha lombar dói quando fico muito tempo em pé, acho que finalmente comecei a entender o que as pessoas temem sobre a velhice. Além das limitações do corpo, tem tudo aquilo que o filme A Substância aborda de forma tragicômica e meio gore: o medo de ser descartada profissionalmente e maltratada socialmente, o risco de me tornar algoz de mim mesma, de odiar as mudanças que vão me moldando sem a minha permissão.
Mas nunca achei que o medo fosse um bom guia. Prefiro a curiosidade, o interesse, o prazer nas coisas. O desassossego empolgante de inventar um caminho.
É claro que acho uma merda ter me tornado intolerante a lactose e precisar fazer Pilates para manter a coluna funcionando. Mas, quando jovem, eu achava uma merda ter espinhas e cabelo cacheado. Hoje, pelo menos, consigo ver a graça no meu joelho que faz crec, mas me leva aonde quero ir.
O corpo é uma festa, como bem disse Galeano, e essa festa, um dia, vai virar um enterro, mesmo. Mas, até lá, eu vou rebolar até o chão (modo de dizer, neste Carnaval descobri que já não dá mais, kkkk).
Sobre a estética da tirinha de hoje, me inspirei demais no trabalho da Cristina Daura, que ando curtindo muito. Apesar da referência, espero ter conseguido fazer algo meu, com a minha cara. Fui encaixando texto e imagens sem ter pensado previamente num layout e brinquei bastante até chegar nesse formatinho (abençoada seja a minha fuga do Instagram, que me permitiu imaginar coisas fora do grid quadradinho com texto-e-imagem juntos no primeiro quadro para chamar a atenção do leitor no meio do feed).
Novidades
✸ Depois de muito dobrar, rasgar, colar e carimbar, finalmente estou colocando no mundo meu zine novo, Aqui dentro, todos os perigos são conhecidos!
Falei sobre ele nesta edição da newsletter, quando ainda era preto e branco (inclusive, você pode lê-lo na íntegra clicando ali no link). Desde a sua concepção, foi um trabalho essencialmente manual, criado a partir de recortes e folhas colhidas no meu mini jardim de varanda. Agora, impresso em risografia1 sobre papel pólen 90g, com capas artesanais carimbadas individualmente e em edição limitada de 100 exemplares, está disponível à venda por R$30 + R$10 de frete fixo para todo o Brasil.
Quem é de Tiktok pode conferir aqui o processo de dobra de cada zininho. E, falando em processo, transformar essa ideiazinha em objeto deu mais trabalho do que eu antecipei. Eu fui na distribuidora de papel e fiquei umas duas horas carregando resmas pesadas para lá e para cá e comparando cores até escolher o material da capa, gente. Eu comprei tinta dourada de carimbo que não funcionou e tive que sair testando várias outras, acabando por usar uma mistura de tinta para pintura de miniaturas e guache. Fiquei cheia de cortes de papel nos dedos.
Quando falei para o meu companheiro que estava começando a me achar maluca por estar gastando tanto tempo e verba em algo que ia me trazer menos retorno financeiro do que uma ilustração, ele disse “mas é que a sua moeda é outra”. E é isso. Obrigada, mozão, por entender, por me ajudar a lembrar quando esqueço e também por me deixar usar sua tinta importada caríssima de miniaturas.
✸ Pin Coração Selvagem! Firme no tema corações e folhas, pelo qual ando claramente obcecada. Um lembrete de que coração dos outros é terra que ninguém anda, e que o nosso próprio reserva seus mistérios.
Feito em metal esmaltado, ele mede 4x4cm e é a coisa mais linda que já vi na vida. Sério. Disponível por R$70 + frete!
✸ Adesivos holográficos!
Simplesmente perfeitinhos demais. O da esquerda mede 6x6cm e o da direita, 5,7x7cm. Cada um custa R$5 + R$10 de frete fixo para todo o Brasil.
Sim, o frete sai mais caro que o adesivo, rs. Então, para compensar, recomendo levar junto de algum outro produtinho, já que um único frete cobre o envio de tudo, ou então comprar vários de uma vez e presentear pessoas queridas.
Caso tenha interesse em algum dos itens acima, pode mandar uma mensagem para ltdathayde@gmail.com!
Recomendo
✸ Pisque Duas Vezes, de Zoe Kravitz, é um baita thrillerzão de vingança. O filme conta a história de duas amigas que estão trabalhando como garçonetes em uma festa de ricaços e acabam sendo convidadas para passar um tempo na ilha particular de um deles, junto de um grupo de pessoas bonitas e interessantes. Lá, é só festa e flerte, e as personagens começam a perder a noção do tempo — que dia é hoje? Há quanto tempo estamos aqui? De onde veio essa mancha de sangue? —, o que pode ser explicado pela quantidade de bebida e drogas recreativas que todos andam consumindo... ou, talvez, a razão seja mais sinistra. Com violência tarantinesca, um roteiro super original e uma direção inspiradíssima, o filme entretém, mas também propõe reflexões interessantes. Vale ressaltar que os temas abordados são pesados e há cenas explícitas, mas Zoe não explora de maneira sensacionalista o sofrimento de suas personagens femininas, o que é uma novidade muito bem vinda! Disponível no Prime.
✸ A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli. O amigo que me recomendou o livro disse que ele era gostoso que nem assistir novela. Ele estava certíssimo, e acrescento que é que nem uma novela das sete. Mais especificamente, Kubanacan. Logo no início do livro, comecei a imaginar o protagonista como o Marcos Pasquim. As duas histórias têm em comum o realismo fantástico, o foco nas relações românticas e familiares entre os personagens e o fato de serem divertidíssimas. A Cabeça do Santo se passa no interior do Ceará, onde Samuel, um homem sem fé, encontra a cabeça abandonada de uma estátua de Santo Antônio que sintoniza, como um rádio, as preces das mulheres locais. E ele vê nisso uma excelente oportunidade de negócios.
✸ Finalmente, recomendo nunca esquecer de que, neste instante, um genocídio está em curso na Palestina. O colonialismo continua vivo e brutal.
Obrigada pela leitura! Sinta-se à vontade para deixar um comentário ou responder a este e-mail. Caso queira, você pode me pagar um cafezinho
Ou, se preferir, pode mandar um pix de qualquer valor para a chave ltdathayde@gmail.com, que vai alegrar meu dia.
Até a próxima,
Laura.
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Técnica de impressão vintage caracterizada pelas cores vibrantes e pelas ligeiras diferenças entre as cópias, já que que cada cor é impressa individualmente em sobreposição à anterior e, devido à variação de posicionamento das folhas de papel, gera exemplares únicos dentro de uma mesma tiragem. Caso tenha curiosidade, você pode ler este artigo da Wikipedia, que explica de forma bem completinha.











Todo ano perto do meu aniversário eu vivo esse dilema de estar envelhecendo e consequentemente me afastando do meu eu criança e me aproximando de uma eu velha, resmungona, cansada, cética... Como eu via os mais velhos na infância. E realmente, eu estou mais cansada, mais cética, um tanto pessimista com o mundo... Mas saber um pouquinho mais das coisas e ainda assim perceber que tem mais um montão de coisas para viver e descobrir é mesmo um lado gostoso de envelhecer!
Importante demais fazer coisas sem se preocupar de ser para o instagram.
E seu trabalho é lindo demais